Certa vez, conheci a Aninha, uma menina linda de 9 anos que acompanhava a mãe em um trabalho de voluntariado que acontecia todos os sábados à tarde. Na época eu era a responsável pela turma entre os 8 e 11 anos que havia se inscrito no grupo de "valores de cidadania".
A Aninha era uma das alunas da turma. Eu procurava sempre criar actividades que envolvessem e motivassem aquelas crianças a buscar mais que uma cesta básica nos sábados, tentando resgatar o que havia de melhor dentro de cada uma delas. A Aninha chamava muito a minha atenção pelo seu incrivel talento pelo desenho. Mesmo com pouca idade ela conseguia desenhar o rosto das pessoas, reproduzir imagens e também criar muitas delas. Ela era muito tímida, mas nunca deixava de cumprir as tarefas solicitadas.
Certo dia solicitei que eles fizessem uma tarefa, em casa, para apresentar no nosso próximo encontro. Pedi que desenhassem a si mesmos exercendo uma profissão no futuro. Os desenhos foram bastantes criativos e variados: eles se desenharam como professores, bombeiros, médicos, astronautas, pedreiros, militares, jogadores de futebol e trapezistas de circo. Cada um deles explicava como se imaginava atuando profissionalmente. foi quando chegou a vez da tímida Aninha: ela havia se desenhado como semeadora.
A turma sem entender nada, começou a rir dela. Quando eu perguntei a ela como seria o seu trabalho como semeadora, ela respondeu da seguinte forma:
- Quando eu for semeadora, passearei pelos bairros da minha cidade arremessando sementes diferentes... Nas casas em que as crianças forem espancadas pelos pais, eu vou semear amor. Nos lares em que faltar comida, eu semearei alimento no quintal. Nos hospitais eu vou semear saúde. Nos orfanatos eu vou semear alegria. Na minha casa, onde falta tudo, comida, cama, remédio e telhado, eu vou semear uma árvore bem alta, para poder subir nela e chegar até ao céu e conversar com Deus. Vou pedir que Ele não se esqueça mais da gente.
Quando a história da Aninha terminou, percebi o silêncio de toda a turma. A princípio eram 19 crianças rindo dela. Depois da história da semeadora, eram 19 crianças emocionadas.
Depois daquele dia, conversei com os responsáveis pelo voluntariado e conseguimos realizar um trabalho mais próximo das famílias. Além das cestas básicas, angariamos mais parceiros para ajudar de forma mais eficaz todas aquelas carências materiais.
A semeadora Aninha começou a realizar a sua profissão ali mesmo, naquele dia. Alguns anos se passaram e a Aninha mudou de cidade. A última notícia que recebi é que ela estava a estudar serviço social. Essa foi a sua forma de se tornar uma semeadora.
Escrito no seu livro O Segredo dos Invejáveis.
Um conto cheio de virtuosismo, que nos "desalpila a alma".
Carlos Botto
Sem comentários:
Enviar um comentário