
Uma história...
...Áka minino não fala mais assim não. Já está, já está... eu trazer os boi e agora eu levar os mota!
Quando eu estava no Cubal negociei numa fazenda distante a uns 60 kilómetros com o capataz, a troca da minha moto por oito bois. Primeiro o homem negro que era rico e que tinha muitas cabeças de gado, queria dar-me apenas 4 bois e eu pedi 12, ele não aceitou. Passado umas semanas quando lá voltei com o jeep do banco, para fazer a rotina da volta pelas fazendas para recolha do dinheiro, ele voltou a oferecer-me 4 bois e eu baixei para 10, ele não aceitou. Voltei la passado mais uns 15 dias e ele já me dava 6 bois e eu não aceitei. Com tudo isto passados uns tres meses ou quatro num dos dias que lá passei eu disse-lhe: olha, então queres a mota ou não queres? O minino quer 10 bois e não aceite 6 bois. Então eu virei-me para ele e disse-lhe: bom não são 10 nem são 6 se quiseres fica por 8 bois. e ele cabisbaixo resmungou e retirou-se, mas notava-se que estava mesmo apaixonado pela minha mota que era linda.
Ficamos assim por vários meses 2 ou 3.
Até que, numa bela manhã de Sábado por volta das 11h00 (ainda se trabalhava ao sábado até às 12h30), aparece-me à porta do banco um homem muito velhinho de cajado e um miudo aí dos seus 10 anos, os dois só de tanga e traziam amarrados pelos cornos e entrelaçados por cordas, os 8 bois de que tinha falado. Amarrou a corda às grades das montras do meu banco (BCCI) entrou de cajado e disse: é o minino dos mota ...eu vai levar os mota para o sr. Samuel capatáz.
Eu ripostei imediatamente pois já tinha programa feito para ir passear para a praia morena em Benguela e passar o fim de semana e não gostei nada de ouvir que me iam levar os mota!!!
Então disse-lhe: o quê, o quê, o quê vais levar o quê??! é pá tem mazé juizo! e vou para Benguela de quê???
O Velhinho que trazia os bois a pé desde a noite anterior sem dormir para fazer 60 kilómetros até ao Cubal muito calmamente em frente ao balcão imponente do BCCI e para todos os meus colegas ouvirem, disse: Áka minino não fala assim não. Já está já está, eu trazer os boi agora levar os mota, se não leva os mota eu não sair mais daqui até morrer! e sentou-se em pleno chão do átrio do banco. Ficamos todos mudos e calados apanhados de surpresa e os bois a zurrarem com fome e sede amarrados às grades.
O Meu gerente disse-me: olha Botto metes-te em cada uma! não há outra forma de se resolver tens mesmo que lhe entregar a mota senão ele não sai mais daqui são da tribo e cumprem as tradições da honra. Morre ele e morrem os bois.
Bom não tive outra alternativa, entreguei-lhe a mota que a levou a pé de volta mais 60 kil. acompanhado pelo garotinho que hoje tenho-o bem na minha memória era uma criança muito bonita e de traços finos e fico triste quando penso. Toda aquela viagem de mais algumas dez horas a pé a juntarem à outra que já haviam feito sem nada comerem e sem reclamarem, pois a mota era bastante pesada e eles não tinham idade para saber andar.
Os bois ficaram lá amarrados a uma àrvore pois eu não os tinha aonde pôr e no dia seguinte apareceu-me no meu hotel onde eu vivia, uns (sipaios) da guarda a dizer que eu tinha que resolver a mudança dos bois dali (isto era mesmo enfrente ao BCCI) e tinha que levá-los para a minha fazenda. Diziam eles; qual fazenda qual quê eu não tinha nada disso...
...continua outro dia.
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